Textos categorizados 'contos'

teresópolis

Tento falar, não sai. A necessidade de cuspir palavras tortas, vomitá-las, essa necessidade dizer mesmo na falta de palavras. Ainda não sei administrar toda uma situação em silêncio e sem ações, fica difícil assim explicar se é uma ausência de sentimentos ou se apenas estou a transbordá-los.

Falta certeza do muito e do nada que vejo através dos olhos seus e sinto um turbilhão de carinhos, espaços e apertos entres os lençóis. A cama aberta entre o espaço dos seus braços em minhas costas e a ausência da alma quente e dos olhares cúmplices.

Misturo as saudades anteriores com o cheiro nostálgico ainda presente nas minhas segundas-feiras de manhã que andam me fazendo falta. Incerteza de um encaixe perfeito ou se apenas mais uma…passagem. Aquela história dos meus deja-vus macabros que acabo por carregar muito das pessoas que aprendo a amar e admirar e fico com a estranha e amarga sensação de não deixar nenhuma parte de mim.

Uma combinação em sonhos e planos em uma divergência de pensamentos e mais uma vez ações.

O desejo do corpo intenso em suores, espasmos e cheiros que muitas vezes desgasta-me o coração e fito-me ao que vejo através dos seus olhos.

no próximo ponto

Sentia o perfume a espalhar por entre aqueles cabelos molhados e da nuca, à mostra, escorria leve gota de suor tão normal a esses verões tropicais. Pés inqueitos balançavam, compulsivamente, assim como alinhava os cachos desgrenhados pelo vento e conseguia nessa desordem emaranhada refletir-se em mim um sorriso que entregava entre olhos apertados ao livro que lia no balançar do ônibus. O perfume espalhava com todo aquele vento e eu podia da fileira de trás sentir seu gosto, o ardor de sua pele entre o vestido de alça e imaginá-la a falar e falar. Desceu no próximo ponto, trazendo seu perfume e pude vê-la andar entre fumaças e perder-me no barulho intenso do trânsito ao imaginá-la com as pernas descobertas por entre os lençóis do meu apartamento, mesmo que em uma noite. Uma noite.

“Quando o avião decolou…”

O lindo móbile de origami colore a sala iluminada pelo abajur, o mesmo cinzeiro cheio de restos de cigarros bem tragados com seu batom, livros, cds e alguns dvds novos compõe o espaço em uma saudade sem fim e a inunda em um cheiro nostálgico tão particular quanto o do asfalto quente molhado. Restou apenas o silêncio e a falta de pólen da flor de plástico da mesa.
Em si, apenas ela sabe, podia sentir o antigo perfume pelos cômodos da casa, a ausência em tomar banho, o encaixe torto e perfeito da cama de solteiro e as conversas horas a fio sobre os ponteiros parados do relógio da sala – ela ainda não havia mudado de endereço e tão pouco tinha relógio em sua sala. Uma antítese em sentimentos: a espera pelo sorriso grandioso em lábios que recortaria em fotogramas e a certeza de que tempo excasso que correu entre seus corpos fora vital em um conforto grandioso que lhe garantia paz na distância de exatos 3 meses e 2 dias, mas que a salvaguarda daquelas mãos por suas costas parecia distante dia após dia, porém permanecia em elo findado entre os lençóis emaranhados de suas pernas trêmulas, os espaços de saudade, os choros escondidos e outros tantos não desabafados. O excesso de expectativas e muitas vezes a falta delas, ainda não sabia como levar o coração mesmo que em pedaços de poeira cósmica. A fumaça inundava o ambiente, hostil agora, e nessa ausência do encaixe e dos cabelos desgrenhados das tardes de domingo e conseguiu apenas dar boa noite, via skype, deixando de dizer o mais importante, o complemento do título e que ficou apenas no rodapé do caderno: “…levou contigo meu coração, meus sonos fartos no sofá da sala, seu cheiro permanece forte entre meus lençóis e meu coração dorme o tempo inteiro em seus braços.”

Mais uma vadia

Estava sentada na mesa, rodeada talvez de possíveis amigos e um deles não a deixara de olhar com possíveis carinhos. Era bonita e tinha sorriso grandioso embaixo de um olhar inocente, bebia cerveja como uma adolescente que em breve estaria embriga, sorri pensando em alguma situação orgástica. Não sei se estava acompanhada ou se desejava estar, mas não conteria em me atrever penetrar naquelas coxas de pele branca e puxar-lhe os cabelos lisos, pois parecia querer isso enquanto me olhava de rabo de olho. O ambiente alastrava fumaça e ela veio em minha direção. Era só mais uma vadia, comi, gozei e não liguei no dia seguinte.

Calma

Estava ali, sentada, na mesa de um café com seus cigarros. Nunca a ti visto. Lia seu livro calmamente e tragava o cigarro com tanta destreza, tipo que sabe fazer, chamou minha atenção e mal conseguia desgrudar os olhos ou pensar no que ela entendia daquele livro ou o que quiçá ela pensava da música que eu ouvia no iPod. Não sei se estava a  espera de alguém, tinha um semblante tão em paz, em calma que chegava a me parecer estranho, pois não parecia ser o tipo de mulher que aguardava as coisas da vida, nem mesmo um amor. E por maior doloroso que isso possa parecer, naquela beleza frágil de seu rosto sustentava alguém aparentemente forte que há muito não conseguia enxergar em mulher alguma.
Ela ajeitava a franja como quem não ligava para padrões estéticos, parecia saber quão linda era e mal se importava, talvez intimamente, apenas naqueles momentos frente ao espelho ela relutasse, mas era linda e não me restavam dúvidas.
Enquadrei-a em um corte, em planos e tinha cores do Almodóvar, senti um prazer imenso e me contive na vontade de perguntar se aquela cadeira vaga seria ocupada em breve, pedi mais um café e olhei os carros a passar no Jardim Botânico, tudo parecia em transe, em uma calma que não havia antes e eu não sei se devia isso a ela…

Tesão, fluir

Ela pôde sentir novamente, mesmo que breve, o gosto do seu beijo a deslizar de seus lábios até a nuca, pescoço e ombros, sente o deslizar das alças da camiseta branca e mãos fartas a acariciar-lhe os seios.  Sente os lábios por toda parte a percorrer sua extensão e nessa hora o sente firme, latejante como a quem explora o mundo, o coração dilacera o peito.
A calcinha desliza ao lado e é tocada em pontos aleatórios, suas mãos preenchem o espaço vazio na calça jeans, ele desliza novamente por suas coxas e pode sentir todo o calor do corpo dela a transpirar e a deixa em pernas trêmulas, suas mãos inquietantes o trazem próximo, ele sobe o corpo e sente suas pernas à sua volta e se fazem em um, em harmonia absoluta de corpos, leves em transpirações, fumaças…mas acorda, só, feliz e só. Envolta em cheiros nostálgicos em uma lentidão de lençóis.

O silêncio…

O silêncio, os lençóis em desordem e um quarto cheio de fumaças. Meu corpo gosta do repousar e das entregas, sentir seu corpo suado, quente, inérte em pós-orgasmos. Há a simplicidade em olhá-lo no canto da cama e deixar-me ser vista, sem pudores, sem fraquezas e em entregas completas nesse silêncio que transborda o quarto em tesão e que podemos nos tocar da mesma forma. Uma simplicidade almejada, o desejo do peso de seu corpo ao meu, constantemente, pois ao fechar os olhos é a você que eu vejo…

O novo e não particular, amor.

Ela não podia mais se encontrar nele e nem em seus olhos negros que tanto lhe acalmavam o coração no início, a alma pulsante que ficou paralisada, as mãos que já não queriam lhe afagar e o pouco de um bocado de lembranças  já era quase indiferente nas horas que corriam ao relógio. É cruel assumir isso, ela sabia bem, mas sabia da necessidade de libertá-lo para um tanto da vida que já não encontrarias mais por essas bandas, as histórias, bons e difíceis horas ficariam de bagagem, mas não havia aquele cheiro, há muito tempo.
O amor salva, embora não tivesse mais certeza, acreditava nisso para fugir de deja-vus macabros que a atormentavam desde sua primeira trajetória amorosa trilhada a cada novo passo, seguindo a um futuro diferente, novas histórias, risos e choros e que relutava constantemente com a sensação em se sabotar, resolveu permanecer sem pressas diante de um punhado de cheiros e sensações novas, germinando a cada nova lembrança clara dessa nova presença, mãos e corpos. O passado já não era presa, lembranças são apenas lembranças sem quaisquer pretensões futuras.
Uma sede constante estaria nele, o novo ele, a ser deliciado nas suas manhãs, planos, sorrisos e carinhos.  Tinha a certeza de que o amaria por toda uma vida e sem dúvidas ou angústias e sentindo o novo vento que soprava, estava pronta ao que viesse, por sentir vontade.
Sorria ao sentir a presença dele a invadi-la, os cheiros e as suas misturas a cada despertar, dividindo problemas que poderiam surgir, diminuir distâncias e o gozar de um tanto da vida que soprava pelos seus corpos entrelaçados.
Havia uma certa ousadia em seus pensamentos e palavras, mas estava intensamente viva e contava com uma vida e não apenas bons momentos. Desfrutaram de todos, até o último orgasmo em saudades e tinha a certeza de um recomeço na lentidão dos lençóis, carregando embriagada um punhado de um novo entrelace.
Alma sempre leve, deixando-o em constante ebulição e uma paz a transbordar os lábios.
Havia de fato o desejo, que lhe parecia mútuo, sem pressa nenhuma a pulsar diariamente toda e qualquer melodia, desejava-o intenso em uma vida em entregas completas, sem pudores, permaneceriam conectos, em elo único, na certeza das simetrias ao acaso e pôde lhe dizer:

-    Meu amor, meu alento, minhas saudades de um tanto de nós, te espero, vivo, aqui e aí dentro de ti.

E ela sorriu, sentindo em uma tarde fria um espasmo de felicidade que lhe aquecia a alma.

Feita em rugas

Ainda na cama, mais um cigarro e ela levantou-se, apoiou em se peito e beijou sua boca, como se provesse do passado de 1 minuto atrás e como gesto corriqueiro que deseja ter em uma vida toda pela frente. Pensou novamente, por 10 minutos que não deveria trabalhar e se arrependeu, ao levantar, vestindo apenas aquela camisa velha com rasgo na gola seguiu ao banheiro e com cabelos presos olhava as rugas, em cada uma podia ver cicatrizes, alegrias e arrepedimentos a cerca do passado e pensava em quais outras rugas poderiam surgir. Queria brincar mais uma vez como no jardim de infância, correr com cachorros e quem sabe ter filhos. Não, ela não desejava tê-los, mas sonhava todas as noites com aquele cheiro incassável de um bebê pela casa. Sentiu a alma aquecida em um abraço e um beijo bem perto do buraco da gola da blusa, mostrando-a o quanto as rugas lhe caiam bem nessa idade e que sim, ele desejava ter filhos e cachorros pela varanda, mesmo sem terem dito absolutamente nada e então teve a certeza de que suas almas estavam abertas, sem vontades de outras vidas e sorriu em plenitude, desejando ainda mais.

Botafogo, suspiros e violões

Voluntários, 18 de julho, apartamento 307. Recebo seu sorriso farto e sinto meus lábios aos seus, abraço seu corpo como a quem toca o mundo em dedos inquietantes. A sala em luz de velas e já posso sentir o ímpeto momento de nossos corpos espalhados pelo chão. Sinto a tensão nas cordas do violão como se tocassem meu espaço, sedentos por seus vermelhos lábios.
Desfruto, degusto mil sabores em sentimentos tão certos e presentes em âmago ardente, saudosista e completo em regozijos a incendiar-me tempestuosamente. O dedilhar em meu sexo e o mesmo diferente espasmo frio a percorrer minha espinha.
A janela sopra um vento frio natural ao mês de julho, a cada nova nota meu corpo transborda e novas idéias surgem nessa explosão criativamente excitante. Minhas mãos tomam a percorrer suas costas de pele branca em oposição a unhas vermelhas e acaricio-te veludosamente até a nuca, sinto seu arrepio imediato e beijo-te a sorver em um gole.
Compartilho sorrisos solitária como a quem deseja prover do passado a menos de cinco minutos e deseja intensamente provar o gosto de suas entranhas em meus lábios, sinto em ti, em nós a mistura de suores, odores e prazeres ao fim da melodia…


Sobre as doses

Fotogramas, recortes, poemas, palpites, percepções, detalhes minuciosos, cigarros e papos de boteco nem sempre tão diários ou homeopáticos.

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