Ela não podia mais se encontrar nele e nem em seus olhos negros que tanto lhe acalmavam o coração no início, a alma pulsante que ficou paralisada, as mãos que já não queriam lhe afagar e o pouco de um bocado de lembranças já era quase indiferente nas horas que corriam ao relógio. É cruel assumir isso, ela sabia bem, mas sabia da necessidade de libertá-lo para um tanto da vida que já não encontrarias mais por essas bandas, as histórias, bons e difíceis horas ficariam de bagagem, mas não havia aquele cheiro, há muito tempo.
O amor salva, embora não tivesse mais certeza, acreditava nisso para fugir de deja-vus macabros que a atormentavam desde sua primeira trajetória amorosa trilhada a cada novo passo, seguindo a um futuro diferente, novas histórias, risos e choros e que relutava constantemente com a sensação em se sabotar, resolveu permanecer sem pressas diante de um punhado de cheiros e sensações novas, germinando a cada nova lembrança clara dessa nova presença, mãos e corpos. O passado já não era presa, lembranças são apenas lembranças sem quaisquer pretensões futuras.
Uma sede constante estaria nele, o novo ele, a ser deliciado nas suas manhãs, planos, sorrisos e carinhos. Tinha a certeza de que o amaria por toda uma vida e sem dúvidas ou angústias e sentindo o novo vento que soprava, estava pronta ao que viesse, por sentir vontade.
Sorria ao sentir a presença dele a invadi-la, os cheiros e as suas misturas a cada despertar, dividindo problemas que poderiam surgir, diminuir distâncias e o gozar de um tanto da vida que soprava pelos seus corpos entrelaçados.
Havia uma certa ousadia em seus pensamentos e palavras, mas estava intensamente viva e contava com uma vida e não apenas bons momentos. Desfrutaram de todos, até o último orgasmo em saudades e tinha a certeza de um recomeço na lentidão dos lençóis, carregando embriagada um punhado de um novo entrelace.
Alma sempre leve, deixando-o em constante ebulição e uma paz a transbordar os lábios.
Havia de fato o desejo, que lhe parecia mútuo, sem pressa nenhuma a pulsar diariamente toda e qualquer melodia, desejava-o intenso em uma vida em entregas completas, sem pudores, permaneceriam conectos, em elo único, na certeza das simetrias ao acaso e pôde lhe dizer:
- Meu amor, meu alento, minhas saudades de um tanto de nós, te espero, vivo, aqui e aí dentro de ti.
E ela sorriu, sentindo em uma tarde fria um espasmo de felicidade que lhe aquecia a alma.